Recordar, repetir e elaborar

Sigmund Freud - 1906

Resenha sobre o Artigo RECORDAR, REPETIR E ELABORAR (Novas recomendações sobre a técnica da Psicanálise II) de 1914.

Este artigo de 1914, isto é quase 20 anos depois de sua primeira publicação: “Estudos sobre histeria” em 1895, é mais uma prova de suas constantes releituras e mudanças em suas próprias descobertas.

Neste artigo Freud apresenta pela primeira vez os conceitos de “compulsão à repetição” e de “elaboração”. Ele inicia seu artigo lembrando as diversas alterações que a técnica psicanalítica já havia sofrido até aquele momento, mas mesmo estas novas descobertas não seriam definitivas.

Freud visitará novamente o tema da repetição em 1920, com o artigo “Além do princípio do prazer”, onde atribui à “compulsão à repetição” características de pulsão. Neste artigo de 1920 seu principal foco é a apresentação especulativa, como ele mesmo diz, do pulsão de morte.

Freud inicia seu artigo de 1914 com o resumo das fases que a Psicanálise já havia experimentado. A primeira fase, que ele chamava de “a da catarse de Breuer”, consistia em recordar e ab-reagir. Com a ajuda da hipnose, o objetivo era a rememoração do momento em que o sintoma se formara. A hipnose acabou sendo abandonada, porque apesar de facilitar esta rememoração, dificultava a ab-reação, justamente por causa do estado alterado de consciência que esta provocava.

Na segunda fase, a associação livre assumiu o papel de ferramenta para a rememoração, mas durante este processo ele percebeu as resistências que o paciente tinha ao se aproximar destas lembranças.

Freud, então fala de uma nova fase, uma nova técnica, na qual o analista contenta-se em estudar o presente, isto é, tornar consciente ao paciente suas resistências, através da interpretação destes processos. Quando as resistências são vencidas, o paciente percebe facilmente as situações esquecidas. Interessante o comentário de Freud de que quando o paciente fala destas coisas esquecidas, normalmente acrescenta que são coisas que sempre soube, mas que nunca pensava naquilo.

Freud aprofunda sua análise deste processo de resistência, dizendo que este aparece como ação, ação repetitiva, que o paciente repete sem saber que está repetindo.

Freud cita três exemplos deste processo de ação repetitiva do paciente:

– O comportamento crítico e desafiador em relação ao analista, ao invés de recordar-se de que era desafiador e crítico em relação à autoridade dos pais;

– A produção de uma massa de sonhos e associações confusas, ao invés de recordar-se de como chegou a um impotente e desesperado impasse em suas pesquisas sexuais infantis;

– A vergonha em relação ao tratamento empreendido e a tentativa de escondê-lo de todos, ao invés de recordar-se de ter se envergonhado intensamente de certas atividades sexuais e de ter tido medo de que elas fossem descobertas.

Durante o tratamento, o paciente não pode fugir desta compulsão a repetição, e Freud conclui que esta é a maneira dele recordar. Seu interesse está na relação entre esta compulsão à repetição, a transferência, e a resistência, concluindo que a transferência é um fragmento da repetição e que a repetição é um retorno do passado esquecido. Freud destaca que esta repetição não acontece apenas na relação com o médico, mas em relação a todos os aspectos da vida do paciente.

Quanto à resistência, Freud conclui que quanto maior ela for, maior será a tendência a repetição. O paciente traz do passado um arsenal de armas (repetições), com as quais se defende contra progresso do tratamento, e o analista deve tirar-lhe estas armas, uma a uma.

A vantagem deste processo em relação a simples lembrança através da hipnose está no fato de que a repetição é algo do presente, que afeta seu comportamento no agora. Não é uma simples lembrança que pode ser mantida no passado distante. O paciente é afetado por estas repetições no agora. Sua resistência poderá inclusive acentuar estas repetições, cabendo ao analista mostrar ao paciente que o possível agravamento dos sintomas é necessário, mas temporário. Freud conclui dizendo que não se pode vencer um inimigo ausente ou fora de alcance.

Sendo o agravamento das resistências parte do processo, Freud indica a necessidade de proteger o paciente fazendo-o prometer que não tomaria decisões importantes durante o período de análise, por exemplo, casar-se ou escolher uma profissão. Este tipo de decisão deveria ser deixado para depois do reestabelecimento. Hoje este tipo de precaução não parece muito viável, devido ao tempo que o tratamento pode levar. Mas na época de Freud parecia mais viável porque naquela época o tratamento era praticamente diário e durava em média três meses.

Freud coloca o manejo da transferência como instrumento principal para reprimir a compulsão a repetição e transformá-la em motivo para recordar, mas não entra em detalhes sobre como seria este manejo, este fica muito na teoria.

Ele também diz que pode acontecer que, por efeito justamente da repetição, o paciente abandone o tratamento como mais uma repetição habitual. Ele cita o caso de uma senhora de idade que tinha repetidamente fugido de casa e do marido, sem ter consciência do motivo porque o fazia. Esta senhora ao iniciar o tratamento com ele, rapidamente demonstrou acentuada transferência, e justamente por causa de sua compulsão a repetição, no caso compulsão de fuga, abandonou o tratamento em uma semana, antes mesmo que Freud pudesse dizer-lhe algo sobre essa sua tendência já esperada.

Freud chama de “neurose de transferência” a substituição da neurose comum por esta mais intensa que ocorre justamente no trabalho terapêutico. Uma região intermediária entre a doença e a vida real.

Durante o manejo da transferência o paciente é levado ao despertar de lembranças após a resistência ter sido superada.

Mas alerta que devemos dar tempo ao paciente para ele conhecer suas resistências e elabora-las. Frequentemente ele ouvia reclamações de que a resistência, após apontada, aumentava ao invés de se desfazer, mas isto já devia ser esperado como parte do processo.

Freud conclui seu artigo dizendo que esta elaboração das resistências é uma tarefa difícil para o paciente e um teste de paciência para o analista. Mas o que distingue o tratamento analítico dos tratamentos por sugestão é a ab-reação das cotas de afeto estranguladas pela repressão.

Em uma comparação ao método da primeira fase, o confronto do paciente com sua compulsão a repetição e sua elaboração, corresponderia à ab-reação que normalmente ficava faltando, na primeira fase descrita, para que aquele método funcionasse.

O método proposto por Freud neste artigo, apesar do detalhamento prático que ficou faltando, e apesar dele mesmo ter avançado em suas descobertas, foi muito utilizado e também muito criticado. Este artigo permanece como uma peça teórica e histórica de sua própria elaboração.

Em “Compêndio de Psicanálise”, por exemplo, material inacabado de Freud, ele fala da importância do analista não entregar suas interpretações ao paciente, antes que este esteja pronto para recebê-las. É como se o analista devesse conduzir o paciente de forma que ele próprio, paciente, precisasse interpretar e concluir por si mesmo. Qualquer tentativa de interpretar por ele, ou não seria compreendida ou simplesmente aumentaria suas resistências.

 

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Jair Bastos

Jair Bastos

Psicanalista com foco no atendimento do jovem. Ajudo no controle da ansiedade e da síndrome de pânico. Consultório no Méier.

Jair Bastos - Psicanalista no Rio de Janeiro