O desenvolvimento infantil e a Mitologia

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O desenvolvimento infantil e a Mitologia

Com a ajuda das fases de desenvolvimento segundo Margareth Mahler, ilustraremos momentos significativos do desenvolvimento com figuras da Mitologia Grega.

Na fase Autística (até 1 mês), segundo Mahler, o bebê ainda busca o

equilíbrio homeostático extra-uterino. Alterna estado de sonolência e satisfação de suas necessidades. Nesta fase não existe percepção do outro. O bebê é tudo. O seio é fruto de sua criação. A libido está investida no Sujeito, não há a mínima percepção do Objeto. A fantasia é achar que ele próprio satisfaz suas necessidades. Traumas nesta fase por impedimentos, ineficiência ou rejeição por parte da mãe podem gerar na vida futura, insônia, dificuldade de descontrair e relaxar, um sentimento apriorístico de rejeição e sérias feridas ao narcisismo.

Buscando a analogia com a Mitologia, temos que Mar é símbolo do inconsciente. Freud diz que entrar na água num sonho significa nascer. Na Mitologia temos a Lua, responsável pelo movimento das marés, representada por duas Deusas: Artêmis, deusa caçadora, provedora, como Lua Cheia (mãe boa) e Hécate, deusa das Sombras (“a distante”), como deusa da Lua Nova (mãe má). Como o bebê “cheio” (satisfeito) ou “vazante” (com fome ou alguma outra necessidade).

Numa determinada passagem, Artêmis pune o caçador Actéon, por tê-la visto sem suas vestes, transformando-o em um servo. O caçador é transformado em caçado e morto pelos próprios companheiros de caçada. Esta imagem ilustra a idéia de projeção da raiva, quando nosso medo é na verdade a projeção no outro da carga agressiva que na verdade, nós é que temos por ele.

Em relação a impressão do bebê de que ele é tudo e a analogia com Mar, é interessante constatar que Freud em O MAL ESTAR DA CIVILIZAÇÃO (1930) utiliza a expressão “sentimento oceânico” citada por um amigo. “Trata-se de um sentimento que ele gostaria de designar como uma sensação de ‘eternidade’, um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras – ‘oceânico’, por assim dizer.” Das Ding, o objeto perdido desde sempre, pode ser comparado a perda deste sentimento oceânico. A falta se faz presente, quando nos damos conta de que não somos este tudo oceânico.

Na fase Simbiótica (de 1 a 6 meses), segundo Mahler, o bebê percebe o seio e percebe gradativamente a mãe. Há a formação do primeiro objeto. Os estímulos externos chegam basicamente através da mãe. Toque, aperto, olhar, palavras. A criança começa a perceber que a satisfação de suas necessidades não provém dela própria. O Objeto vai diferenciando-se e a libido investe-se cada vez mais no Objeto. A mãe super-protetora provocará no futuro excessiva dependência. A mãe omissa abalará sua confiança, sua capacidade de entrega e esperança.

Em nossa analogia, temos Afrodite, deusa do amor e do relacionamento, cujo nome significa “nascida da espuma do mar”. Segundo o Mito, quando o falo cortado de Urano cai no Mar, surge uma espuma e desta espuma se eleva Afrodite, já adulta. A mãe surge como primeiro objeto do próprio mar do inconsciente. Nasce da espuma do leite do seio, através do qual o bebê tem seu primeiro contato de prazer com o mundo exterior e seus objetos.

Outra analogia interessante, Afrodite é a mãe de Cupido, que com suas flechas, desperta o amor nos homens. Cupido é normalmente representado por um bebê, o filho de Afrodite, como para qualquer mãe, é um eterno bebê. O bebê e sua relação com a mãe que determinará nossas paixões. Isto é, a mãe influenciará sempre inconscientemente nossas escolhas amorosas.

Antes de passarmos a próxima fase, vou citar Lacan em “Os Complexos familiares” falando sobre o Complexo de Desmame: “As sensações proprioceptivas de sucção e da preensão constituem, evidentemente, a base dessa ambivalência da vivência, que decorre da própria situação: o ser que absorve é inteiramente absorvido e o complexo arcaico lhe responde no abraço materno.”

Segundo Mahler, a fase seguinte é o Desabrochamento (de 6 a 8 meses). Nesta fase o bebê percebe a mãe por inteiro, como um outro. Mas também percebe os outros (pai, irmãos…) e o ambiente. O bebê se afasta da mãe para explorar o mundo. As frustrações confirmam o Princípio da Realidade. Nesta fase o bebê necessita de objetos transicionais. Surge um sentimento de impotência diante da percepção de que a mãe pode ir e vir independente de sua vontade. A criança deve ser estimulada a exploração do ambiente, a desenvolver habilidades, fazer coisas, de forma a estimular sua autoconfiança.

A Negligência da mãe na fase da Simbiose faz com que a criança fique mais ansiosa do que curiosa, e passe a evitar o contato físico com a mãe.

Nossa analogia é com o deus Hermes, deus da comunicação. É ele que faz a comunicação entre os mundos real e subterrâneo. No dia em que nasce, Hermes rouba um rebanho de gado de seu irmão Apolo. Ele o faz de forma sorrateira, ele amarra galhos nos rabos do rebanho para que suas pegadas sejam apagadas e não possam ser seguidas. Com o casco de uma tartaruga e as tripas de um dos bezerros, Hermes faz uma lira que acaba trocando com o irmão pelo rebanho. Hermes parece estar preocupado com sua provisão de leite, como o bebê que acabou de perceber a mãe como outro que age independente de sua vontade. Como a criança, Hermes faz uso de objetos transicionais.

“A mãe suficientemente boa, […] parte de uma adaptação quase total às necessidades de seu bebê, e com o passar do tempo adapta-se cada vez menos inteiramente, de acordo com a capacidade crescente do bebê de lidar com suas falhas”. (WINNICOTT, 2000, p. 326). Winnicott também fala dos objetos transicionais como suporte no momento de separação.

Em seguida, segundo Mahler, inicia-se a fase de Treinamento (de 8 a 15 meses). O interesse da criança pela mãe se estende a objetos provenientes dela. Um cobertor, uma fralda, um brinquedo ou a mamadeira que ela deixa em suas mãos à noite. O papel da mãe é apontar direções e caminhos para a exploração da criança, se mantendo disponível caso ela necessite. O prazer pelas descobertas deve compensar os sentimentos depressivos pelo afastamento. Engatinhar, primeiros passos…

Aqui podemos fazer a nossa analogia com “Os 12 trabalhos de Hércules”. Suas missões lhe eram propostas da mesma maneira que a mãe deve fazer com seu filho. Utilização ou conquista de objetos de Poder. Se nosso aventureiro não for estimulado em suas buscas e conquistas, se instalará nele a insegurança e com ela a Preguiça.

Segundo Mahler, o próximo movimento é de Reaproximação (de 15 a 18 meses). A criança percebe melhor a relação especial entre o pai e a mãe e luta agressivamente por suas vontades e objetivos. Usa o “não” para causar desprazer no adulto. A mãe deve ajudá-lo a fazer concessões.

Aqui nossa analogia é com Ares, deus da guerra. Deus extremamente ciumento, que se torna amante de Afrodite, a Deusa mãe, conforme nossa analogia. Temos aqui essa referência ao retorno, reaproximação da mãe. O pequeno guerreiro precisa ser ajudado para que não permaneça na Ira. A criança tem a necessidade de compartilhar suas descobertas com a mãe. Ela traz para a mãe diversos objetos que ela encontra em suas explorações. Ela luta agressivamente por suas vontades, seus objetivos, sempre que eles não podem ser alcançados. Necessidade de ser amado. O sexo está em evidência.

Voltando a Lacan no texto acima citado, agora falando do Complexo de Intrusão, temos: “De resto, a doutrina analítica, caracterizando como sadomasoquista a tendência típica da libido nesse mesmo estádio, ressalta sem dúvida que a agressividade domina, então, a economia afetiva, mas também que ela é sempre simultaneamente sofrida e posta em ato (agie), ou seja, sustentada por uma identificação ao outro, objeto da violência”. Isto é, quanto mais competitivo o ambiente, mais agressiva ela será.

De acordo com Mahler, depois vem a Crise de Reaproximação (de 18 a 21 meses). A criança percebe que apesar da mãe estar ausente, ela pode ser encontrada. O foco que na fase anterior estava na palavra não, passa para a palavra onde. Onde está a mãe. Ela não gosta da ideia de ser abandonada, prefere abandonar, para brincar com outras crianças, por exemplo. Nesta fase a criança está exercitando seus primeiros movimentos de controle e independência. Controle do xixi e controle anal.

Nossa analogia é com Cronos. Deus que após cortar o falo do pai e tomar seu lugar, engole todos os seus filhos quando nascem, com medo de que estes um dia tentem tomar seu poder, como ele próprio havia feito com o pai. Os filhos ficaram dentro dele, controlados, como o obsessivo compulsivo, retido na fase anal, necessita de controle da situação. Nosso deus, se inseguro pelas suas experiências do passado, desenvolverá a Avareza.

A última fase, segundo Mahler, é a Distância Ideal de Reaproximação (de 21 a 24 meses). A criança favorecida pela linguagem verbal, passa pedir o que necessita. Ela passa ter capacidade de julgamento, sabendo distinguir o que é certo e o que é errado. Passa a apresentar uma individualidade própria. Nesta fase vão se repetir as relações das fases mais gratificadas ou onde houveram traumas. O padrão de relação objetal está então formado e será repetido em todas as relações significativas da pessoa. Segundo Berne, uma fome psicológica quando reprimida, perde a capacidade de prover satisfação ao indivíduo. Este irá se compensar desta falta buscando gratificações de outro tipo, o que produzira os sintomas, se não ficou retida em alguma fase anterior.

Nossa analogia é com Zeus, deus que caracteriza o início do social, ele luta com o pai auxiliado pelos irmãos, substituiu o pai dividindo o Poder com os irmãos. Era o Deus que julgava as demandas dos demais. Em Zeus temos um ser social que não conquistou o seu falo. Ele depende da aprovação dos demais para se sentir poderoso (CHE VUOI). Interessante observar que Zeus, enquanto histérico, em suas constantes conquistas sempre se apresenta como o objeto de desejo do outro. Para uma amante ele se apresenta como touro branco, para outra ele é um cisne branco, para outra ainda, uma chuva de prata… Interessante também é a relação entre histeria de conversão e as mudanças de forma física, assumidas por Zeus.

 

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Jair Bastos

Jair Bastos

Psicanalista com foco no atendimento do jovem. Ajudo no controle da ansiedade e da síndrome de pânico. Consultório no Méier.

Jair Bastos - Psicanalista no Rio de Janeiro