Além do Princípio do prazer

Sigmund Freud - 1

Resenha sobre o Artigo ALÉM DO PRINCÍPIO DE PRAZER de 1920.

Em 1914 através do artigo “Recordar, repetir e elaborar”, Freud apresenta o conceito de “compulsão à repetição”. Neste artigo Freud coloca o manejo da transferência como instrumento principal para reprimir esta “compulsão a repetição”

e transformá-la em motivo para recordar, mas não entra em detalhes sobre como seria este manejo. É um artigo mais focado na teoria.

Em “Além do princípio do prazer” Freud atribui à “compulsão a repetição” as características de pulsão. Este artigo pode ser considerado uma introdução à fase final de suas concepções, mas também não é prático no que se refere ao manejo clínico. Veremos que seu principal foco é a apresentação especulativa, como ele mesmo diz, da pulsão de morte.

Freud inicia o primeiro capítulo relacionando o prazer e o desprazer à quantidade de excitação. O desprazer está relacionado com o aumento na quantidade de excitação e o prazer com a diminuição da excitação. O aparelho mental trabalha para manter a excitação baixa ou constante. Desta forma o princípio do prazer decorre do princípio da constância.

O princípio da Realidade, através dos instintos de autopreservação do ego, substitui o princípio do prazer. O princípio da realidade adia o prazer nos impondo uma tolerância temporária ao desprazer.

Instintos sexuais reprimidos que cheguem indiretamente a satisfação, são percebidos não como prazer, mas como desprazer. Freud conclui que todo desprazer neurótico é deste tipo, isto é, prazer substitutivo que não pode ser sentido como prazer.

No segundo capítulo, Freud fala da neurose traumática destacando o fator surpresa como causa. A pessoa se viu em perigo sem estar preparada para ele. Ele argumenta que o estado de ansiedade é na verdade um estado de preparação para o perigo.

Como os sonhos que ocorrem nas neuroses traumáticas possuem a característica de trazer o paciente de volta à situação de seu acidente repetidamente, Freud aponta que estes sonhos fogem à idéia de que os sonhos são realizadores de desejos inconscientes. Ou então estes esconderiam tendências masoquistas do ego.

Depois mudando o foco para a questão da repetição, ele discorre sobre o brincar das crianças, que envolvem muito prazer e que são frequentemente brincadeiras de imitação ou repetição. Ele cita um menininho que atira um carretel com um pedaço de cordão amarrado para fora de sua caminha, emitindo um “o-o-ó”. Depois o menininho puxa o carretel pelo cordão fazendo-o aparecer novamente. Agora fazendo a emissão sonora: “da”. Este desaparecimento e retorno é interpretado por Freud como uma repetição do movimento da mãe de se ausentar e aparecer novamente.

Apesar do prazer no reaparecimento, Freud destaca que a criança costumava com muito mais frequência apenas lançar para longe seus brinquedos, e que este movimento repetitivo somente do afastar não se harmoniza com o princípio do prazer. Logo ele conclui que este movimento de afastar deveria conter algum prazer de outro tipo. A criança sai da passividade da experiência sofrida, e passa a atividade do jogo, transformando a experiência desagradável em brincadeira e vingando-se num substituto. A mãe abandona a criança e a criança abandona o brinquedo.

No terceiro capítulo Freud fala nas transformações do processo analítico e que como o paciente não consegue recordar totalmente o que se acha reprimido e sendo material do passado, não se acha necessariamente vinculado às queixas do presente. O caminho para afetar o paciente é pelas repetições do presente, que segundo ele, são atuadas na transferência e sempre tem referência ao complexo de Édipo, através da sexualidade infantil.

Com o processo analítico a neurose primitiva é substituída pela neurose de transferência. Através da transferência o paciente deve reexperimentar alguma parte esquecida de sua vida, mas deve reconhecer que se trata apenas de reflexo do passado. Desta forma o sentimento de convicção será conquistado, juntamente com o sucesso terapêutico.

Freud tira o foco da questão entre consciente e inconsciente para contrastar as posições de ego coerente e recalcado. Diz que as resistências do paciente originam-se do ego e que a compulsão à repetição deve ser atribuída ao recalcado inconsciente. A resistência do ego consciente e inconsciente atua pelo princípio do prazer, buscando evitar o desprazer que seria produzido pela liberação do reprimido.

Através da transferência o paciente revive emoções difíceis com muita engenhosidade, como por exemplo: tentando interromper o tratamento antes que este esteja completo; imaginando sentir-se desprezado, obrigando o médico a tratar-lhe friamente; descobrindo objetos apropriados para seu ciúme. Essas atividades conduzem apenas ao desprazer, mas são repetidas compulsivamente. Freud então fala desta compulsão atuando no dia-a-dia. Ele se mostra especialmente impressionado com os casos de repetições passivas, citando o exemplo da mulher que casou três vezes e que sucessivamente os maridos ficaram doentes e ela teve de cuidar deles em seu leito de morte.

Conclui que existe uma compulsão à repetição que é maior do que o princípio do prazer, como acontece nos sonhos das neuroses traumáticas e nas brincadeiras da criança.

No quarto capítulo inicia alegando que a consciência é apenas uma das funções dos processos mentais e que os processos excitatórios exaurem-se ao se tornarem conscientes. Numa analogia com a vesícula do sistema nervoso central e seu método de proteção contra os estímulos, demonstra a importância desta proteção contra estímulos, quase mais importante do que a própria recepção dos mesmos. Os estímulos marcam a superfície da vesícula, de forma que novos estímulos devem ter haver com estas marcas já produzidas. Ele diz que o intuito da recepção de estímulos é descobrir a direção e a natureza dos estímulos externos, e por isso, apanhar amostras destes estímulos externos seria o suficiente.

Os estímulos internos (desprazer e prazer) podem ser maiores que os externos. Ele descreve como traumáticas todas as excitações do exterior que consigam atravessar o escudo protetor.

A neurose traumática é consequência de uma grande ruptura causada no escudo protetor contra estímulos. Colocando a ansiedade e a hipercatexia dos sistemas receptivos como última defesa do escudo protetor, Freud demontra que a neurose traumática ocorre de surpresa porque estas proteções (ansiedade e catexia) não estavam ativadas. Conclui então que na neurose traumática os sonhos tem a função de dominar retrospectivamente o estímulo, desenvolvendo a ansiedade que faltou para evitar o trauma. Supõe que estes sonhos teriam uma função mais antiga que a função de realização de desejos. Uma função além do princípio do prazer.

No capítulo cinco relembra que o processo psíquico primário é um processo do inconsciente e que o processo secundário é que é percebido em nossa vida de vigília. O processo mental transforma um processo primário em secundário e o fracasso nessa transformação atuaria como uma neurose traumática, alterando a prioridade do princípio do prazer. A repetição através da brincadeira da criança é a forma de assimilar a realidade traumática de modo ativo. Para a criança a repetição, a reexperiência de algo, é fonte de prazer.

Freud supõe que todos os instintos orgânicos são conservadores, e que tendem a um estado anterior de coisas. Coloca que a entidade viva não teria desejo de mudar. Se o ambiente não mudasse ela permaneceria a mesma, repetindo o mesmo curso de vida.

Aqui gostaria de destacar que conservar significa manter a situação atual e não retornar a um estado anterior, por isso aqui faço uma objeção, uma crítica a uma dedução distorcida. A repetição é uma característica da vida animal, é a forma que a natureza utiliza para conservar a vida. Os animais repetem as ações do grupo a que pertencem, eles aprendem imitando as ações de se alimentar e de se proteger, por exemplo. Quanto maior a dificuldade de assimilar a ação, maior a necessidade da repetição. A criança, enquanto animal, quando “abandonada” repete a ação sofrida abandonando o brinquedo. Ela precisa assimilar esta nova experiência e para isso terá de repeti-la. Neste sentido Freud também destaca que quanto mais traumática a experiência, mais forte é a compulsão à repetição.

No capítulo seis Freud fala que a essência de sua investigação neste artigo era a distinção entre os instintos do ego e os instintos sexuais e que o primeiro grupo exerce pressão no sentido da morte e o segundo no sentido de prolongamento da vida, mas considera que ainda não tinha nada conclusivo.

Ele passa a falar sobre a questão da morte natural. Para as raças primitivas, isto não existia. A morte estava sempre relacionada a um inimigo ou a um espírito mau. Voltando-se para a biologia, cita Weismann, que fala da distinção entre o soma mortal e o plasma germinal imortal como característica somente dos organismos multicelulares. Os organismos unicelulares seriam potencialmente imortais uma vez que as duas partes são uma coisa só. Se a morte é uma aquisição tardia dos organismos (os primeiros seres eram imortais), então não se pode falar em instintos de morte desde o começo. Após diversas analogias com a biologia, Freud volta à questão do ego, localizando-o como reservatório da libido, conforme identificado no estudo do desenvolvimento da libido infantil. Coloca os instintos de morte ligados aos instintos do ego e os instintos sexuais ligados aos instintos de vida, reforçando suas concepções dualistas. Ele cita o amor objetal que pode se apresentar tanto como amor ou afeição, tanto como ódio ou agressividade. Cita a fase oral da organização da libido onde a incorporação e a destruição do objeto estão presentes e que estão relacionadas ao sadismo. Após lembrar que considerava o masoquismo como um sadismo que se voltou para o próprio ego do sujeito, afirma que pode haver um masoquismo primário. Aqui minha segunda objeção, acredito que ele estava certo quando dizia que podemos voltar nossa agressividade contra nós mesmos, se não conseguimos extravasá-la adequadamente.

Freud citando Platão, fala de um homem primevo em que tudo era duplo. Tinha quatro mãos, quatro pés, dois rostos, duas partes pudentas e Zeus decidiu cortá-los em dois, após esta separação cada uma das partes vive desejando sua outra metade. Neste ponto Freud praticamente se desculpa por ter dado asas a seus pensamentos, permitindo que fosse levado pela sua curiosidade científica. Admite que pode ter superestimado a significação da compulsão a repetição e que mesmo suas analogias com a biologia são muito frágeis uma vez que a biologia é uma terra de possibilidades ilimitadas. Diante da fragilidade do exposto, Freud admite que publicou estas suas especulações porque acreditava que mereciam ser consideradas.

Freud encerra no sétimo capítulo, muito curto, concluindo que procurar restaurar um estado anterior de coisas constitui característica tão universal das pulsões, que podemos nos surpreender com tantos processos mentais que ocorrem independente do princípio do prazer. O aparelho mental deve substituir o processo primário, onde predominam as pulsões, pelo processo secundário, convertendo sua energia catéxica livremente móvel, numa catexia principalmente quiescente. O princípio do prazer, na busca da constância ou do baixo nível de excitação, se confunde com a busca do retorno à quiescência do mundo inorgânico, como se o princípio do prazer servisse à pulsão de morte.

Freud termina, mais uma vez, destacando a possibilidade de vir a abandonar esta linha de pensamento, citando que somente os crentes, que exigem que a ciência seja um substituto para o catecismo que abandonaram, culparão um investigador por desenvolver ou mesmo transformar suas concepções.

 

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Jair Bastos

Jair Bastos

Psicanalista com foco no atendimento do jovem. Ajudo no controle da ansiedade e da síndrome de pânico. Consultório no Méier.

Jair Bastos - Psicanalista no Rio de Janeiro